Sou velocista e não melhoro!

É bastante comum ouvir de nadadores, quando perguntamos que prova nada, e a resposta é 50 ou sou “velocista”. A minha pergunta seria: baseado em que uma criança ou um jovem nadador, pode afirmar que é velocista?

Ser velocista depende de inúmeros fatores, sendo que o principal é genético e os outros dependerão de força, idade, treinamento, etc…

Quem acompanhou a natação brasileira nos anos 80, deve lembrar que tínhamos nadadores infantis, tops no ranking mundial de faixa etária, os quais nunca chegaram  as Olimpíadas. Fato!

Os nadadores precisam aprender não só a técnica apurada, como e porque treinar mas também a ciência da natação ou do esporte.

A hereditariedade, ou herança genética é herdada dos nossos pais. Assim o chamado perfil biológico, é determinante para cada modalidade esportiva. Seria mais ou menos assim: um “baixinho” no Vôlei ou Basquete ou um “altão” na Ginástica Artística dificilmente terão sucesso nas modalidades.

Na Natação, sem ainda falar da genética, aqueles que nascem no final do ano, já têm uma ligeira desvantagem sobre quem nasceu no início do ano, podendo chegar essa variação de quase um ano, ou seja de 11 meses, entre quem nasceu em janeiro e dezembro. Grandes times de futebol hoje, na seleção de jovens talentos, já estão recrutando nascidos até junho.

Identificação de talentos é um processo esportivo que ainda estamos atrasados, pois o sistema esportivo nas escolas, está falido, com raríssimas exceções. Estatisticamente, os “melhores velocistas” são mais velhos, estão na faixa dos 25 anos ou mais. Anthony Irvin foi Ouro no Rio2016, aos 37 anos!

É extremamente precoce e perigoso, ver crianças e jovens nadadores, se auto intitularem “velocistas”.  Se a velocidade depende da genética, é devido a distribuição das fibras musculares, já determinada. O músculo é composto de fibras vermelhas, fibras brancas ou de intermediárias, as rosas. Assim como a cor, a função metabólica também é diferente, como as quantidades.

As fibras vermelhas, são as oxidativas,  pois possuem alta concentração de mioglobina, que atua no armazenamento do oxigênio carregado pelo sangue, o que bioquimicamente está “super equipada” para os trabalhos aeróbios, ou de longa duração.

Já as fibras brancas, essa sim, as dos “velocistas”, concentram alta quantidade do glicogênio e são capazes de produzir esforços em altíssima intensidade, porém muito curtos.

As fibras rosas ou rosadas, em bem menor quantidade, favorecem provas de meio fundo, porém são “treináveis” ou “adaptáveis”, ou seja, dependendo da condução do treinamento elas intercambiam suas funções, ou para glicolíticas ou para oxidativas.

Assim para se afirmar “velocista”, somente podemos constatar a veracidade através de biopsia muscular, onde é extraído uma porção de tecido muscular, através de uma punção, quase sempre na cabeça do deltoide, para a contagem das fibras e determinação de que esportes este individuo estará sujeito ao sucesso.

Um dado curioso é de que em raríssimos casos, por exemplo, no Atletismo, indivíduos brancos, correram os 100m abaixo dos 10 segundos. Isso remete a genética.  Assim como somente em 1988, tivemos um nadador com ascendência negra, conquistando ouro olímpico.

Não só pelo custo, dificuldade de acesso e também pelo método invasivo, não se faz biopsias em todo o mundo. Há alguns testes físicos que podem aproximar estes padrões tais como corrida de 30m lançada, teste de impulsão vertical e horizontal e outros que podem classificar potenciais velocistas ou indivíduos que tenham certa predominância de fibras brancas.

Em natação, até se poderia fazer um teste com tiro de 25, porém por ser uma modalidade que depende de outra gama de variáveis físicas, tais como flutuação e mecânica de nado, não creio ter alta correlação com as fibras musculares, embora quem faça menor tempo, por lógica, é “mais veloz”!

Explorar o potencial glicolítico de crianças e jovens nadadores, através de treinos curtos e de alta intensidade, pode ser tão perigoso quanto frustante, já pela simples razão biológica de ser limitado em cada indivíduo.

Se você não melhora nos cinquentinha ou parou, é porque atingiu seu potencial, é porque não tem disponibilidade genética para tal. Pare de se frustar e treine tão duro quanto, para distâncias maiores …

 

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Foto Anthony Irvin, Campeão Olímpico 50 Livre RIO2016.

 

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